quarta-feira, 15 de junho de 2011

Leitura e reflexão

À Flor da Pele
      As cores eram levadas muito a sério em Fulgor, oitavo planeta que orbitava em torno de estrela Radex.
      No início, isso tinha sua razão de ser, porque os seres vermelhos eram escravizados pelos seres azuis, e o controle ficava facilitado.
     Mas, com a evolução, muitos azuis começaram a achar injusta a escravidão. Afinal, fora a cor da pele, eram criaturas iguais em qualidades e defeitos.
      Mesmo assim, se, na prática, a escravidão acabou, os vermelhos continuaram a enfrentar um tipo de escravidão mais difícil de ter fim: a do preconceito.
      Com uma freqüência alarmante, os vermelhos viam-se impedidos de entrar em alguns lugares, de exercer determinadas profissões e, quando o amor rompia as barreiras, como só o amor sabe fazer — sem pedir licença —, muitos censuravam a mistura de vermelhos e azuis.
      E mais: certos vermelhos consideravam-se inferiores, como conseqüência do longo tempo de humilhação.
      Foi então que o acaso trouxe uma terrível doença, que, não se sabe por que, atingia os azuis, poupando os vermelhos.
      Como os vermelhos pareciam imunes à peste, os cientistas concluíram que a melhor maneira de deter a doença seria os azuis receberem transfusão de sangue dos vermelhos.Assim foi feito, e, logo, ninguém mais morria da praga misteriosa.
      Entretanto, essa atitude teve um imprevisto efeito colateral: os vermelhos começaram, pela primeira vez na história de Fulgor, a dizerem-se superiores aos azuis, por serem os únicos a carregar, no próprio sangue, a imunidade salvadora.
      Iniciaram um processo de escravidão dos azuis, que, com o orgulho alquebrado e medo de não receberem mais a transfusão de sangue, deixaram-se dominar.
      Novamente, o destino interveio, e uma outra peste abateu-se sobre Fulgor, desta vez atingindo os vermelhos. Chegou a vez dos azuis cederem seu sangue para os vermelhos.
      Com tanta mistura, a natureza provocou uma estranha transformação na cor dos seres: muitos azuis adquiriram uma coloração de pele vermelha, e muitos vermelhos acordaram azuis.
      É evidente que se tornou inútil insistir na escravidão de uns pelos outros, já que ninguém podia garantir que era um vermelho — como também ninguém estava certo se um azul era azul ou era vermelho e ficara azul.
      Hoje, passadas muitas gerações, riem os habitantes de Fulgor, principalmente os mais novos, ao lerem que houve épocas em que azuis escravizavam vermelhos e vermelhos dominavam azuis.
      Afinal, Fulgor inteiro já sabe — como sabem também as mais avançadas civilizações em todas as galáxias — que não existem diferenças entre azuis e vermelhos. Somos todos arco-íris.

Fonte: TAVARES, Ulisses. Fábulas do Futuro. São Paulo: Editora do Brasil, 2001. p. 57 a 59.

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