quinta-feira, 25 de agosto de 2011


DISSERTAÇÃO: Partes de um todo: a estrutura da dissertação



Puro preconceito



      “É razoável que as pessoas tenham medo de assaltos. Eles se tornaram rotina nos centros urbanos e por vezes, têm conseqüências fatais. Faz todo sentido, portanto, acautelar-se, evitar algumas regiões em certos horários e, até, evitar pessoas que pareçam suspeitas.
      Em quem inspira desconfiança é, no imaginário geral, mulato ou negro. Se falar com sotaque nordestino, torna-se duplamente suspeito. Pesquisa feita em São Paulo, contudo, mostra que essas idéias não têm base realidade. Não passam de preconceito na acepção literal do termo. Dados obtidos de 2.901 processos de crimes contra o patrimônio (roubo e furto) entre 2001 e 2006 revelam que o ladrão típico em São Paulo é branco (57% dos crimes) e paulista (62%).
     Os negros, de acordo com a pesquisa, respondem por apenas 12% das ocorrências. Baianos e pernambucanos, juntos, por 14%.
      O estudo é estatisticamente significativo. Os 2901 processos correspondem a 5% do total do período.  É claro que algum racista empedernido poderia levantar objeções metodológicas contra o estudo. Mas, por mais frágil que fosse a pesquisa, ela já serviria para mostrar que o vínculo entre mulatos, negros, nordestinos e assaltantes não passa  de uma manifestação de racismo, do qual, aliás, o brasileiro gosta de declarar-se isento.
      A democracia racial brasileira é antes e acima de tudo um mito. Como qualquer outro povo do planeta, o brasileiro muitas vezes se revela racista e preconceituoso.Tem é claro, a vantagem de não se engalfinhar em explosões violentas de ódio e intolerância. Essa vantagem, contudo, tem o efeito indesejável de esconder o preconceito , varrendo-o para baixo do tapete da cordialidade.
      Como já observou Albert Einstein: ‘Época triste é a nossa em que é mais fácil quebrar um preconceito do que um átomo’.”                                            
                                                                              (Folha de São Paulo, 10.04.206)

    
   Título: antecipa, de modo resumido, a análise que será feita pelo autor do texto.

1º parágrafo: considerações gerais sobre a relação entre a ocorrência rotineira de assaltos e o medo das pessoas.

Preparação do caminho da análise a ser feita.

2º parágrafo: introdução de dados estatísticos que sugerem a associação da cor da pele e da origem das pessoas ao grau de suspeição da sociedade em relação a elas.

3º parágrafo: análise dos dados mostra ser falsa a relação suposta pelas pessoas entre a cor da pele e origem e grau de periculosidade de um indivíduo. A Argumentação, nesse caso, constrói-se a partir da apresentação de dados estatísticos.

4º parágrafo: apresentação de raciocínio analítico (sustentado pelos dados anteriormente apresentados) que mostra ser preconceito o que leva as pessoas a temer negros e nordestinos.

5º parágrafo: ampliação da análise. Os dados revelam que a “democracia racial brasileira” é apenas um mito.

6º parágrafo: conclusão. O autor do texto recorre à citação de uma conhecida frase de Albert Einstein como forma de emprestar “autoridade” para a análise que acabou de fazer e concluir, definitivamente, que o problema maior da sociedade é o preconceito.
          

EXPOSIÇÃO E ARGUMENTAÇÃO

Pai  patrão

 “Quando a democracia surgiu na Grécia, por volta de 500 a.C., os atenienses fizeram questão de traçar uma linha nítida entre as esferas públicas e privadas. O poder do estado terminava onde começava a privacidade do lar. No âmbito doméstico, reinava a vontade do patriarca que tinha o poder de determinar os direitos e deveres de seus filhos, mulher e escravos. Para os gregos não havia atividade mais apaixonante e gloriosa do que participar da condução da polis. A política  era a maneira civilizada de decidir os destinos da nação por meio do diálogo e da persuasão. O cidadão revelava sua grandeza de espírito e sua importância para a comunidade no debate de idéias, na defesa de proposições e nas vitórias no âmbito público. Um homem que levasse uma vida exclusivamente privada não passava de um insignificante animal doméstico, incapaz de participar da elaboração das decisões políticas que afetavam os destinos da nação.
      Se Aristóteles ressuscitasse no final do século XX, ficaria horrorizado com a interferência do Estado na privacidade do cidadão. A sociedade moderna seqüestrou a intimidade do indivíduo. E inimaginável uma atividade pública ou privada que não seja regulamentada por lei, por estatuto ou por norma. Se o governo não cria regras, a universidade as inventa ou o grêmio esportivo as impõe. A maioria das organizações privadas atua como uma grande estatal, que determina como seus membros devem agir, pensar e se comportar. O estado moderno erradicou a fronteira entre o público e o privado. Os assuntos públicos são tratados como questões privadas, e a privacidade passou a serencarada como algo de interesse público.”

                                       D’ÁVILA, Luiz Felipe. In: República.



COMENTÁRIOS:

O primeiro parágrafo do texto que acabamos de ler é um exemplo típico da exposição que tem por objetivo informar o leitor sobre um aspecto específico importante para o desenvolvimento textual. Nota-se que o autor recupera informações de natureza histórica sobre a relação entre as esferas pública e privada na  democracia grega de 500 a.C. Faz isso porque pretende discutir como é feita essa mesma relação, nademocracia moderna.

O segundo parágrafo demonstra que o objetivo da exposição inicial é realmente preparar o leitor para acompanhar a argumentação que se segue. O texto perde o caráter meramente informativo e passa a apresentar argumentos que possam comprovar a tese do autor: no mundo do final do século XX há uma imensa interferência do Estado na privacidade do cidadão.




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