domingo, 11 de setembro de 2011


Leitura e Análise Textual - Gênero Narrativa de Aventura - 7os. Anos


Viagem ao centro da Terra

Júlio Verne

Capítulo XVI

                Agora começava a verdadeira viagem. Até então, o cansaço havia sido maior que as dificuldades; agora, estas iriam realmente brotar a nossos pés.Eu ainda não tinha olhado para esse poço insondável em que ia mergulhar. Chegara a hora. Podia ainda aderir à iniciativa ou desistir dela. Mas eu tinha vergonha de recuar na presença do caçador. Hans aceitava tão tranquilo a aventura, com tal indiferença e inconsciente de qualquer perigo, que fiquei vermelho só de pensar em ser menos valente que ele. Se eu estivesse sozinho, teria arranjado uma porção de desculpas; mas, na presença do guia, não tive saída. Uma de minhas lembranças voou para minha querida virlandesa, e me aproximei da chaminé central.
                Acho que ela tinha trinta metros de diâmetro, ou cem metros de circunferência. Inclinei-me de cima de uma rocha que pendia sobre o buraco e observei. Meus cabelos arrepiaram-se. Uma sensação de vazio tomou conta de mim. Comecei a perder o equilíbrio, e a vertigem subiu-me à cabeça, como se eu estivesse me embriagando. Que coisa mais chata essa atração do abismo. Eu ia cair.Uma mão me segurou: era Hans. Na verdade, eu não assistira a todas as “lições de abismo” na Vor Frelsers Kirke de Copenhague.
                Mas, se eu olhasse um pouco mais para dentro desses poços, teria percebido sua conformação. As paredes, quase perpendiculares, tinham numerosas saliências que podiam facilitar a descida. Contudo, se não faltava escada, faltava corrimão. Uma corda amarrada em cima era o bastante para nos segurar, mas como soltá-la quando chegássemos lá embaixo?
                Para superar essa dificuldade, meu tio empregou um recurso muito simples. Desenrolou uma corda de uns dois centímetros de grossura e uns cento e trinta metros de comprimento. Primeiro, deixou que ela desenrolasse até a metade; depois, enrolou-a em volta de um bloco de lava com uma saliência e jogou a outra metade no buraco. Cada um de nós podia então descer segurando na mão as duas metades da corda que ficaria presa no bloco; depois de descer uns sessenta metros, seria fácil recuperá-la soltando uma ponta e puxando a outra. Daí, era só recomeçar esse exercício ad infinitum.
                – Agora – disse meu tio, depois de ter feito esses preparativos –, vamos cuidar das bagagens. Vamos dividi-las em três fardos, e cada um de nós prenderá um deles nas costas, isto é, só os objetos frágeis.É claro que o professor não nos incluía nessa última categoria:
                – Hans vai se encarregar dos utensílios e de uma parte da comida; você, Axel, vai ficar com outra parte da comida e com as armas; e eu, com o resto da comida e com os instrumentos frágeis.
                – Mas e as roupas, e este monte de cordas e escadas, quem vai levá-las até lá embaixo?
                – Elas descerão sozinhas.
                – Como?
                – Você vai ver.
                Meu tio, como sempre, não vacilava em mandar. A uma ordem sua, Hans reuniu num único volume os objetos pesados, e esse fardo, bem amarrado, foi simplesmente jogado no buraco.
                Ouvi o estrondo produzido pelo deslocamento das camadas de ar. Meu tio, debruçado sobre o abismo, olhava satisfeito a descida de suas bagagens e só se levantou depois que as perdera de vista:
                – Muito bem. Agora é nossa vez. […]

Glossário

chaminé: canal pelo qual o vulcão expele a lava. A cratera se localiza no topo da chaminé vulcânica.
vertigem: tontura.
Vor Frelsers Kirke: igreja de Copenhague, com uma torre de noventa  metros.
ad infnitum: expressão em latim, signifca “sem fm”.
virlandesa: nativa de Vierlande, região ao sul de Hamburgo, na Alemanha.



1.  Na passagem que você acabou de ler, podemos identificar três personagens: prof. Lidenbrock, o jovem Axel e Hans Bjelke.
a.  O narrador de Viagem ao centro da Terra é uma dessas três personagens ou é alguém que não estava presente entre os viajantes?
b. Justifique sua resposta usando três trechos do texto.
2. Como o narrador descreve Hans Bjelke? Justifique sua resposta copiando adjetivos atribuídos a ele.
3.  Que tipo de sentimento Axel tem antes de olhar para dentro da chaminé do vulcão? Por que ele não se deixa contagiar por tal sentimento?
4.  Nem sempre uma personagem é descrita por adjetivos. Suas ações também servem para nos indicar suas características exteriores e interiores.
Leia atentamente os trechos abaixo sobre o Prof. Lidenbrock. Qual característica psicológica eles apontam?
a .  “Meu  tio,  como  sempre,  não  vacilava  em mandar...”
b.  “Para superar essa dificuldade , meu tio empregou um recurso muito simples.”
5.  Como você imagina que sejam fisicamente o prof. Lidenbrock, Axel  e Hans Bjelke? Descreva-os em seu caderno, e então explique por que você os vê assim.

Referência:
OLIVEIRA , Gabriela Rodella de,RODRIGUES, Flávio Nigro, CAMPOS,  João Rocha . Narrativa de Aventura . Português a arte da palavra.  1. ed. São Paulo. Editora  AJS Ltda. 2009.


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