sexta-feira, 11 de novembro de 2011


Leitura e análise textual - gênero conto  - 8o. ano - 4º Bimestre /2011


  

 A PESTE QUE EU FUI OU ... AI, QUE FALTA DE SAUDADES DOS MEUS OITO ANOS!

            A bicicleta era uma só. Era uma velha bicicleta, meio desconjuntada, pintada de “azul cheguei” e, sobretudo, era minha. Os adultos queriam jogar bridge, ou sei lá, enfim, não desejavam crianças na sala, sobretudo, também, por causa do bridge. Então, os adultos diziam assim:
            — Vão andar de bicicleta, queridinhas!
Eu estava uma fera. Andar na MINHA bicicleta, sair de MINHA casa e fingir, sobretudo, que não percebia o outro jogo do MEU pai!
            A amiga, naqueles tempos passadíssimos, era gorda. Minha obrigação era levá-la no selim. Lá ia eu, curtindo meu ódio, levando a gorducha e bonita e rosada e louçã e... pois é!
Eu morava na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Naquele tempo quase não havia automóvel por ali, lugar ideal para levar a gorda, bonita, rosada e louçã, no selim, enquanto eu, magra, arrepiada e exausta, suava, nhec, nhec, pedalando a MINHA bicicleta ... a gorda, só tomando brisa, cantarolava, louçã.
            Aí, eu vi um paralelepípedo muito atraente, fora do lugar, no caminho. O paralelepípedo, de um lado, o buraco do outro, com muito lugar ainda para a bicicleta passar, sem problemas.
            Foi quando eu perguntei para a louçã:
            — Você gostaria de morrer caindo naquele buraco, ou preferiria fraturar o nariz naquela pedra? Escolha, queridinha, porque eu vou fazer com que você odeie bicicletas para o resto da sua vida!
            A menina deu um risinho e respondeu, com voz de soprano:
            — Você adora fazer dramas, não é, Sylvia?
            — Adoro, sim, mas responda depressa, porque eu vou me machucar, mas você queridinha, vai se arrebentar!
            — Deixa eu pensar, ainda não decidi! – respondeu a inocente criatura, pesadíssima.
            Aí, eu dei mais uma volta, para dar tempo para ela decidir. De repente, a menina percebeu que estava falando sério, começou a choramingar, na base do eu quero descer da bicicleta, vou falar com mamãe, estou de mal.
            Eu já estava de volta. Gritei, pedalando violentamente, correndo o mais que podia:
            — Escolha: a pedra ou o buraco?
            — A pedra, a pedra! – berrava a menina.
            Fui ao alvo, com toda a velocidade. A pedra, chegando, chegando... e nos esborrachamos!
            Ela ficou toda ralada, chorando alto. Eu, pingando sangue do nariz, sorria, no auge da felicidade.
            Era uma peste. Sou até hoje, porque meu pai, quando ler esta história, vai ficar danado da vida. Bem feito, quem mandou jogar bridge?

        (Sylvia Orthof. Em O sadismo da nossa infância. São Paulo: Summus, s.d.)


1.Um paralelepípedo é um objeto bastante comum. O que fez com que aquela pedra se tornasse tão “atraente” para Sylvia?

2. Qual foi a reação da amiga quando soube do plano de Sylvia?


3.Por que Sylvia, mesmo machucada, estava feliz? Você concorda?


4. Releia o texto, observe as palavras que estão escritas com letras maiúsculas. Depois responda:
             
            a. Qual a classe gramatical de MINHA, MEU ?
            b. Qual a intenção da narradora ao utilizar esse recurso?

5 .Qual é o foco narrativo desta história? Justifique sua resposta com um trecho do texto que comprove sua resposta.

6. Escreva os seguintes elementos do conto de Sylvia Orthof:  Conflito ,  Personagens,  Espaço

7. De acordo com o dicionário Bridge significa jogo de cartas, pesquise o significado de selim e de louçã.

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