quarta-feira, 11 de julho de 2012


          Gênero  Textual Contos de Fadas / Contos Maravilhosos





                Quem lê "Cinderela" não imagina que há registros de que essa história já era contada na China, durante o século IX d. C.. E, assim como tantas outras, tem-se perpetuado há milênios, atravessando toda a força e a perenidade do folclore dos povos, sobretudo, através da tradição oral.

         Pode-se dizer que os contos de fadas, na versão literária, atualizam ou reinterpretam, em suas variantes questões universais, como os conflitos do poder e a formação dos valores, misturando realidade e fantasia, no clima do "Era uma vez...".

         Por lidarem com conteúdos da sabedoria popular, com conteúdos essenciais da condição humana, é que esses contos de fadas são importantes, perpetuando-se até hoje. Neles encontramos o amor, os medos, as dificuldades de ser criança, as carências  (materiais e afetivas), as auto-descobertas, as perdas, as buscas, a solidão e o encontro.

         Os contos de fadas caracterizam-se pela presença do elemento "fada". Etimologicamente, a palavra fada vem do latim fatum (destino, fatalidade, oráculo).

         Tornaram-se conhecidas como seres fantásticos ou imaginários, de grande beleza, que se apresentavam sob forma de mulher. Dotadas de virtudes e poderes sobrenaturais, interferem na vida dos homens, para auxiliá-los em situações-limite, quando já nenhuma solução natural seria possível.

         Podem, ainda, encarnar o Mal e apresentarem-se como o avesso da imagem anterior, isto é, como bruxas. Vulgarmente, se diz que fada e bruxa são formas simbólicas da eterna dualidade da mulher, ou da condição feminina.

         O enredo básico dos contos de fadas expressa os obstáculos, ou provas, que precisam ser vencidas, como um verdadeiro ritual iniciático, para que o herói alcance sua auto-realização existencial, seja pelo encontro de seu verdadeiro "eu", seja pelo encontro da princesa, que encarna o ideal a ser alcançado.

Estrutura básica dos contos de fadas:

Início - nele aparece o herói (ou heroína) e sua dificuldade ou restrição. Problemas vinculados à realidade, como estados de carência, penúria, conflitos, etc., que desequilibram a tranqüilidade inicial;
Ruptura - é quando o herói se desliga de sua vida concreta, sai da proteção e mergulha no completo desconhecido;
Confronto e superação de obstáculos e perigos - busca de soluções no plano da fantasia com a introdução de elementos imaginários;
Restauração - início do processo de descobrir o novo, possibilidades, potencialidades e polaridades opostas;
Desfecho - volta à realidade. União dos opostos, germinação, florescimento, colheita e transcendência.

O Gato de Botas e a Moralidade

         Conto francês de Charles Perrault integrante da coletânea Contos da Mãe Gansa (1967). Esta obra tem como base o popular e envolvia, muitas vezes, uma moralidade. Não se deve esquecer que este é o momento da França Absolutista, onde a burguesia está ascendendo e há a necessidade de veicular os novos valores que essa transformação social impunha.

         Na verdade é um conto maravilhoso, uma vez que não há presença de fadas para incluí-lo como conto de fadas.

         As ditas moralidades eram frases escritas em verso no final de cada história que apontavam para normas de comportamento, baseadas no modelo social ideal. Objetivavam evitar problemas de convívio entre os cidadãos.

         A moralidade contida em O Gato de Botas trata do destino das pessoas que estavam à mercê do acaso, da esperteza ou da sorte. é a questão da partilha medieval,onde os três irmãos receberiam do pai diferentes heranças: mais velho - moinho, do meio - burro para levar a farinha e o mais moço - um gato que ainda tem de alimentar. Aqui vê-se que os dois mais velhos têm um meio de se sustentar, enquanto o menor ainda gasta para manter viva sua herança. Diante deste quadro adverso e injusto, aparece o elemento mágico/maravilhoso Gato de Botas. Ele é o responsável pelo restabelecimento da justiça, mesmo que para isso tenha de usar meios ilícitos: os fins justificam os meios. O Gato é mágico mas ele usa a burrice humana para conseguir o que quer. Trata-se da moral ingênua (não se sabe tudo ou conhece tudo).

A moral é textualmente a seguinte:

Tenham agudeza no espírito e agilidade nas mãos, / Sejam, em uma palavra, trabalhadores e industriosos e vereis retornar a vós a fortuna / que virará as costas àqueles que a tiveram de nascença / e que não sabendo fazer nada para a conservar quando a tem, saberão muito menos para a conquistar, uma vez perdida.
Fica clara a superioridade atribuída ao burguês trabalhador e dedicado em relação ao nobre que já nasce com a riqueza. Este último está vulnerável, podendo perder esta riqueza por não ser laborioso. O lema "o trabalho enobrece o homem" pode ser enriquecido com "e também enriquece-o". O elemento que aparece para mudar a pobreza do rapaz é o Gato de Botas. Para tanto vários ardis são utilizados para fazê-lo casar-se com a princesa. A genialidade com que é construída a personalidade falsa do Marquês de Carabás valoriza o grande plano. O fato de ser um gato o elemento mágico pode estar ligada a rapidez e agilidade felinas.

Este conto está relacionado aos ritos de iniciação, que preparava as pessoas para o ingresso na sociedade tratando algum princípio social. O Gato de Botas ensina ao futuro chefe (rei - nobre) as exigências de seu novo estado social. Claro que aqui apresenta-se a crítica social à nobreza.

Referências Bibliográficas:

BETELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 13a edição. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
ROMÃO, Lucília Maria Sousa & PACÍFICO, Soraya Maria Romano. Era uma vez uma outra história: leitura e interpretação na sala de aula. São Paulo: Difusão Cultural do Livro, 2006.
SCHOEREDER, Gilberto. Fadas, Duendes e Gnomos: o Mundo Invisível. São Paulo: Editora Hemus, 1977.


Um comentário:

  1. Olá Aureliano
    Desculpe minha falha, mas só agora pude retribuir a visita.
    Adorei seu blog e, como sou amante de literatura (apesar da memória um tanto quanto falha), leio sempre que posso. Assim voltarei sempre.
    Abraços
    Dona Sinhá

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