sábado, 11 de agosto de 2012


                                                                O PRAZER DA LEITURA

            Muito se afirma em nossos dias que as pessoas de maneira geral leem pouco ou nada. Não é o que se constata convivendo com jovens das mais diversas origens. Talvez o que esteja se transformando seja o significado da leitura e o prazer dela oriundo. Outra controvérsia atual seria a possibilidade da substituição gradativa dos livros impressos pelos livros digitalizados disponíveis na íntegra em portais para buscas on-line.
            Constato também que apesar de todas as polêmicas o livro impresso continua sendo um dos mais nobres objetos culturais, um símbolo de nossa memória e de nossa civilização. Sem dúvida mudaram as necessidades dos leitores habituados hoje com as novas tecnologias e as frases curtas predominantes nas redes sociais. E a leitura silenciosa, ainda considerada como uma das formas mais adequadas para a obtenção de conhecimentos e de informação, adquire novas dimensões e novos desdobramentos neste nosso mundo veloz e dotado de inúmeras possibilidades de intercâmbio cultural.
            Por outro lado, há sempre o risco do culto à superficialidade e, por conseguinte, de um vazio existencial que precisa ser abastecido ininterruptamente com novidades quase sempre fúteis, que anseia por uma satisfação de seus desejos cada vez mais rápida e mais sintonizada com as novas ofertas do mercado. Neste sentido, Theodor Adorno, sociólogo alemão, em 1959, cria um conceito - o semiculto - para tentar definir a formação cultural, num ensaio intitulado Theorie der Halbbildung (Teoria da semicultura).
            Ele fala sobre a modernidade que privilegia um indivíduo semiculto, que conhece um pouco de tudo, que se limita aos resumos e se orienta pela ambição. Adorno vê nisso um enorme perigo: "Compreender e saber pela metade não é uma etapa preliminar da cultura e sim um inimigo mortal desta: elementos culturais que cheguem à consciência sem pressuporem sua continuidade transformam-se em substâncias tóxicas malignas." Qual a saída? Para Adorno, só há uma: uma vida autodeterminada, através da reflexão crítica sobre a semicultura e sobre o semiconhecimento.
            O prazer da leitura está muito associado às vivências de experiências estéticas que nos conectam com o que de melhor foi produzido por nossa civilização e que reforçam nossa condição humana em meio a um mundo repleto de ameaças e perigos iminentes. Jorge Luis Borges considerava o livro uma extensão da memória e da imaginação. Para ele, a biblioteca - um local quase mágico povoado pela imaginação humana - seria a memória da humanidade. Em suas aulas aconselhava os alunos a não lerem críticas, e sim as próprias obras em questão. Talvez compreendam pouca coisa, dizia, mas sentirão um prazer único e estarão ouvindo a voz de alguém, já que cada autor tem a sua voz.
            É preciso considerar, contudo, que as mídias e as novas formas de comunicação se complementam e se otimizam mutuamente, modificando a inserção social dos objetos culturais, sua recepção e a produção de seus conteúdos, além de fazer frutificar novas linguagens artísticas. Neste contexto, a leitura seguirá sendo sempre uma "forma de felicidade".

Erlon José Paschoal
Diretor de teatro, dramaturgo e tradutor.


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