segunda-feira, 27 de maio de 2013

Gêneros Instrucionais


            Denominam-se por gêneros instrucionais os tipos de enunciado organizados sob uma relação discursiva de comando-execução, orientando ou proibindo ações e comportamentos. Dolz e Scheuwly (2010) caracterizam os gêneros instrucionais sob capacidade de linguagem de regulação mútua de comportamentos. O arranjo discursivo do gênero instrucional, necessariamente, inscreve no texto as figuras de um enunciador (aquele que prescreve ou interdita os comandos) e de um enunciatário (a quem se dirigem as instruções ou interdições a serem observadas).
            Embora seja evidente que os gêneros apresentem uma heterogeneidade tipológica, percebe-se que há sequências que se revelam como discursivamente dominantes em determinados gêneros. A diretriz comando-execução acaba por atribuir aos gêneros instrucionais características (recorrentes, porém não obrigatórias) na materialidade linguístico textual. A sequência textual predominante nesses enunciados tipicamente instrucionais é a injuntiva (MARCUSCHI, 2002), cujo objetivo é levar ao enunciador executar algo. A sequência injuntiva está, assim, para os gêneros instrucionais, como um traço relacionado ao estilo, que, ao  lado do conteúdo temático e da construção composicional,  é um elemento caracterizador dos gêneros textuais.
         A injunção pode explicitar uma força ilocucionária de ordem, pedido, sugestão, restrição ou interdição. Travaglia (2007, p. 43) afirma que, no tipo textual injuntivo, o conteúdo “é sempre algo a ser feito e/ou como ser feito, uma ou várias ações ou fatos e fenônemos cuja realização é pretendida por alguém”.
            Intrínseca à sequência injuntiva encontra-se a implicatura de um desnível temporal do discurso – a injunção indica um comando a ser praticado em um momento futuro, posterior à própria enunciação. desse modo, a sequência injuntiva traz, em si, um núcleo de um processo de transformação: há um “antes” (o estado anterior da execução das orientações/ prescrições) e um “depois” (implicados na execução do comando por parte do interlocutor), demarcados pela ação transformadora incitada pela injunção. Assim, a sequência injuntiva extrapola o plano textual-discursivo, ao propor uma junção dialogal entre o dito e o por fazer, inscritos no plano de ação estruturador do sentido textual.
            Travaglia (2007) afirma que a superestrutura de textos do tipo injuntivo3 costuma ser formada por três partes ou categorias esquemáticas. A primeira é o elenco ou descrição dos elementos a serem manipulados a partir do comando-execução; o elenco pode apresentar-se sob a forma de lista (ingredientes de receita), lista e descrição/ ilustração (fotos ou desenhos em manuais de instrução). A segunda categoria esquemática é a determinação ou incitação, em que se apresenta o comando-execução a ser cumprido – “a injunção em si” (Id., p. 50). A terceira parte é a justificativa, ou incentivo em que se apresenta a justificativa para o comando-execução. Travaglia (2007) ressalta que textos que são necessária e dominantemente injuntivos apresentam essa superestrutura em seu todo ou em parte de sua própria superestrutura. O autor menciona, ainda, que as categorias esquemáticas não estão sob ordem fixa e podem ser intercambiáveis. “A única parte obrigatória é a determinação, mas às vezes o produtor do texto apenas dá a justificativa ou explicação e a determinação fica implícita, sendo deduzível através de inferências” (Id., p. 51).
            Em relação às características do verbo, Travaglia mostra que, nos textos do tipo injuntivo, é comum o uso de auxiliares modais de modalidades imperativas (principalmente ordem, obrigação e prescrição) e verbos sob nuance semântica de dinamismo (ações), normalmente indicando a condição do produtor do texto (incitador) e do interlocutor (potencial executor do comando). Segundo o autor, os verbos, em textos injuntivos, não apresentam a atualização do aspecto e o valor temporal característico é de futuro, independentemente da forma verbal.Rosa (2003, p. 32) agrupa os gêneros de predominância do tipo injuntivo de acordo com a função sociocomunicativa. Há três categorias de textos instrucionais: o texto instrucional-programador (instrui um modo de fazer; (exemplo: receita), o texto de conselho (sugere um fazer; exemplo: horóscopo) e o texto regulador-prescritivo (obriga um fazer; exemplo: leis).
           A relação entre gêneros instrucionais e injunção como sequência textual predominante parece, muitas vezes, ser apreendida como intrínseca – a noção norteadora de comando daqueles gêneros liga-se estritamente à força ilocucionária inscrita em uma sequência injuntiva. segundo Travaglia (2007, p. 51), o tipo textual injuntivo, como estrutura textual dominante, vincula-se a gêneros como mensagem religioso-doutrinária, instruções, manuais de uso e/ou montagem de aparelhos, receitas de cozinha e receitas médicas, textos de orientação comportamental (por exemplo, como dirigir sob neblina etc.).
           Apesar de ser evidente a inter-relação entre sequência injuntiva e gêneros instrucionais, tal vinculação não pode ser entendida como uma relação biunívoca, em que a existência de um desses elementos pressupõe necessariamente a presença do outro. Tal proposição se verifica na possibilidade de sequências injuntivas comporem – ainda que não predominantemente – gêneros textuais que não sejam instrucionais (como, segundo Travaglia (id., ibid.), no gênero editorial), ou, ainda, alguns gêneros instrucionais não explicitarem um comando-execução por elementos característicos de uma sequência injuntiva, embora o tragam inscrito no nível discursivo (como, por exemplo, o gênero textual crendice popular, em que o comando-execução não se manifesta na materialidade do texto, mas é resgatada por meio da exploração dos elementos implícitos).
           Pela objetividade do gênero instrucional (o comando procura ser mais o claro possível, para que a execução seja cumprida conforme o esperado), os textos sob essa organização genérica costumam apresentar linguagem precisa, frases curtas e uma ordenação relativamente fixa das informações (a alteração dos comandos pode refletir no processo de sua execução). Gêneros instrucionais com maior corporeidade textual (receitas, manuais) costumam apresentar articuladores textuais que explicitam a hierarquia de execução de cada microcomando a ser cumprido, para que o macrocomando seja realizado, promovendo, assim, a progressão textual: “primeiramente”, “antes”, “depois”, “em seguida”, “por último” etc.
            O enquadramento argumentativo nesses gêneros, por sua vez, não favorece a polêmica: o texto instrucional assume-se como verdade a ser seguida, não abrindo espaço a outra possibilidade de construção do discurso por parte do interlocutor. dessa maneira, desde os manuais de instruções, passando pelas receitas e bulas de medicamentos, até chegar aos textos legais (placas de trânsito, regulamentos, estatutos, leis etc.), os gêneros instrucionais são construídos sob uma assimetria discursiva entre enunciador. (aquele que dita o modus operandi de um saber) e enunciatário (o que deve cumprir os procedimentos determinados).
          Assim, podemos afirmar que, nos gêneros instrucionais, pressupõem-se a autoridade e legitimidade do enunciador para a construção do discurso – o comando apenas se justifica caso o interlocutor a aceito como verdade, justificado e reconhecido socialmente, a ser executada. Os tipos de enunciados instrucionais tendem a ser fechados em si mesmos, a partir de uma visão autoritária da construção dos sentidos.
(...)

Gêneros instrucionais nos livros  didáticos: análise e perspectivas
Leonor Werneck dos Santos
Sylvia J. S. do Nascimento Fabiani



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