sexta-feira, 30 de agosto de 2013


EMEF Prof Fernando Pantaleão

Língua Portuguesa – Leitura e Análise Textual – 8os. Anos – 3º Bimestre /2013

A Doida

(Carlos Drummond de Andrade)

            A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se. [...]
            Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o  contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores. Dos doidos devemos ter piedade, porque eles não gozam dos benefícios com que nós, os sãos, fomos aquinhoados.
            Não explicavam bem quais fossem esses benefícios, ou explicavam demais, e restava a impressão de que eram todos privilégios de gente adulta, como fazer visitas, receber cartas, entrar para irmandades. E isso não comovia ninguém. A loucura parecia antes erro do que miséria. E os três sentiam-se inclinados a lapidar a doida, isolada e agreste no seu jardim.
            Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo. Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma. Só o busto, recortado numa das janelas da frente, as mãos magras, ameaçando. Os cabelos, brancos e desgrenhados. E a boca inflamada, soltando xingamentos, pragas, numa voz rouca. Eram palavras da Bíblia misturadas a termos populares, dos quais alguns pareciam escabrosos, e todos fortíssimos na sua cólera.
            Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de sessenta anos, e, loucura e idade, juntas, lhe lavravam o corpo). Corria, com variantes, a história de que fora noiva de um fazendeiro, e o casamento, uma festa estrondosa; mas na própria noite de núpcias o homem a repudiara, Deus sabe por que razão. O marido ergueu-se terrível e empurrou-a, no calor do bate-boca; ela rolou escada abaixo, foi quebrando ossos, arrebentando-se. Os dois nunca mais se viram. [...]
            Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé do caminho do córrego, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e eclipsava-se. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, provisões e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável. [...]
            Vinte anos de tal existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças. E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra. [...]
            Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. A pedra batia no caixilho ou ia aninhar-se lá dentro, para voltar com palavras iradas. Ainda haveria louça por destruir, espelho, vaso intato? Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado. O chefe reservou-se um objetivo ambicioso: a chaminé.
            O projétil bateu no canudo de folha de flandres enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos [...] era tudo a mesma paz.
            Aí o terceiro do grupo, em seus onze anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Não só podia atirar mais de perto na outra janela, como até praticar outras e maiores façanhas. Os companheiros, desapontados com a falta do espetáculo cotidiano, não queriam segui-lo. E o chefe, fazendo valer sua autoridade, tinha pressa em chegar ao campo.
            O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado?... E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem, e o melão-de-são-caetano se enredava entre as violetas, as roseiras pediam poda, o canteiro de cravinas afogava-se em erva. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins, cabecinha móbil e suspicaz. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois em atacar a janela. [...]
            A lagartixa salvara-se, metida em recantos só dela sabidos, e o garoto galgou os dois degraus, empurrou a cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução [...].
            A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma caçarola no chão, e a pedra que o companheiro jogara.
            Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia pois estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou o peitoril, pisou indagador no soalho gretado, que cedia.
            A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve, entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro. [...]
           
            O menino foi abrindo caminho entre pernas e braços de móveis, contorna aqui, esbarra mais adiante. O quarto era pequeno e cabia tanta coisa.
            Atrás da massa do piano, encurralada a um canto, estava à cama. E nela, busto soerguido, a doida esticava o rosto para frente, na investigação do rumor insólito.
            Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como protegê-los de uma pedrada.
            Ele encarava-a com interesse. Era simplesmente uma velha, jogada no catre preto de solteiro, atrás da barricada de móveis. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.
            Mas os dedos desceram um pouco, e os pequenos olhos amarelados encararam por sua vez o intruso com atenção voraz, desceram às suas mãos vazias, tornaram a subir ao rosto infantil.
            A criança sorriu, de desaponto, sem saber o que fizesse.
            Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido.
            Como a criança não se movesse, o som indistinto se esboçou outra vez.
            Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida, e todo desejo de maltratá-la se dissipou. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se canhestramente, o confirmavam.
            O menino aproximou-se, e o mesmo jeito da boca insistia em soltar a mesma palavra curta, que, entretanto não tomava forma. Ou seria um bater automático de queixo, produzindo um som sem qualquer significação?
            Talvez pedisse água. A moringa estava no criado-mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber. Fazia tudo naturalmente, e nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria ideia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo.
            Nunca  vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem.
            Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam. Teve que abraçar-lhe os ombros – com repugnância – e conseguiu, afinal, deitá-la em posição suave.
           

            Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio...
            Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de aquiescência. Ficou perplexo, irresoluto. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer [...].
            Foi tropeçando nos móveis, arrastou com esforço o pesado armário da janela, desembaraçou a cortina, e a luz invadiu o depósito onde a mulher morria. Com o ar fino veio uma decisão. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.

Vocabulário
Aberrante: o que se afasta do que é considerado normal ;  Galgar: subir, transpor, saltar;  Aquiescência: concordância, consentimento Gretado: rachado;  Aquinhoado: favorecido, contemplado ; Insólito: incomum, anormal, raro ; Caçarola: um tipo de panela;  Irresoluto: indeciso ;Calhau: pedaço, fragmento ;Lapidar: apedrejar, atacar ou matar com  pedras ;Canhestramente: desajeitado, tímido ;Projétil: qualquer corpo que pode ser  lançado ;Catre: cama rústica e pobre ;Repudiar: rejeitar, abandonar ;Cólera: raiva intensa, ira, furor ;Repugnância: nojo, repulsa, asco ;Desgrenhado: sem pentear, desalinhado ;Soerguer: erguer-se um pouco, levantar-se ;Dissipar: desaparecer, dispersar ;Suspicaz: suspeito, estranho ;Eclipsar-se: desaparecer, afastar-se ;Voraz: faminto, ávido

ESTUDO DO TEXTO

1. Na cidade, havia uma “doida”.

a) As pessoas conheciam bem essa mulher e o seu passado?

b) Entre os trechos a seguir, indique aqueles que confirmam sua resposta.

· “Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo.”
· “Mas era bom passar pela casa da doida e provoca-la.”
· “Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras.”
· “Corria, com variantes, a história de que fora noiva.”

2. O texto aponta uma causa para a suposta loucura da mulher. De acordo com a versão apresentada no texto:

a) Que fato poderia ser responsável pelo enlouquecimento da mulher?
b) Que comportamento dela eram tomados pela população como indícios de loucura?
c) Na sua opinião, essa mulher era realmente doida?

3. As crianças cresciam ouvindo histórias sobre “a doida”.

a) De acordo com o quinto parágrafo, o que as motivava a atirar pedras na casa da mulher?
b) As mães concordavam com o comportamento dos filhos? Por quê?

4. O texto narra a aventura de três meninos que resolvem se divertir atirando pedras na casa da “doida”.
a) Inicialmente, eles pretendiam entrar na casa da mulher?
b) A cada pedra que atiravam, o que despertava a curiosidade e a coragem deles?

5. Observe as palavras e expressões destacadas nestes trechos do texto:
 “resolveu invadir o jardim” ;  · “tinha pressa em chegar ao campo” ; · “entrar em terreno proibido” ; · “Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo” ; · “a doida não deu nenhum sinal de guerra”  ; · “atrás da barricada de móveis” .

a) A escolha dessas palavras e expressões mostra que o narrador procurou criar um cenário aonde vai se dar o encontro das duas personagens. Que tipo de cenário é esse?
b) Quem, na verdade, vê a casa como se fosse um cenário desse tipo?

6. O narrador descreve com detalhes o jardim e o interior da casa.

a) Como eram esses dois espaços? Justifique sua resposta com palavras do texto.
b) O menino se surpreende ao ver que o jardim está abandonado. Qual a razão?
c) Mais tarde, ele vai compreender por que o jardim está abandonado. Qual a razão?

7. O menino encontra a “doida” num quarto entulhado de móveis, que formavam uma “barricada” em torno da cama.

a) Levante hipóteses: Por que a mulher teria escolhido esse quarto para se refugiar?
b) O que a palavra barricada sugere quanto ao modo como a mulher se sentia?
c) Portanto, ela também se sentia em guerra?

8. O encontro do menino e da mulher surpreendeu os dois.

a) Qual foi a reação dela ao ver o menino? Por quê?
b) Por que o menino se surpreendeu?
c) Que sentimento brotou espontaneamente no menino ao ver a condição da velhinha?

9. A experiência vivida pelo menino assume um significado especial no texto, pois revela um lado de sua personalidade que ele próprio desconhecia.

a) Qual é esse lado?
b) Inicialmente o menino abraçou a velhinha com repugnância para ajuda-la a deitar-se; entretanto, no final do texto, mostra-se disposto a pegar as mãos dela espontaneamente. O que essa mudança de atitude do garoto demonstra?
c) Com essa experiência, você acha que o menino “cresceu”? Por quê?


10. O texto lido aborda vários temas, entre os quais a maldade infantil, o casamento tradicional, a família, a loucura, a velhice, a solidão. Que reflexões ele provoca sobre o relacionamento das pessoas com o “outro”? 

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