sábado, 25 de janeiro de 2014

Retorno

O  ano letivo se inicia e a  perspectiva  é sempre de muito trabalho . Por isso coloquemos à nossa disposição  o que temos de melhor, para que sejamos resistentes , fortes e determinados frente às dificuldades que houver.
Que as nossas ações sigam a linha do amor e da sabedoria:
Mais amor ao falar;
Mais paciência ao ouvir;
Mais cautela ao lidar;
Mais responsabilidades nos estudos;
Mais perseverança no aprender;
Mais solidariedade nas relações com os outros;
Mais respeito pelas diferenças;
Mais amigos para dividir;
Mais sorrisos com vontade;
Mais amores de verdade;
Mais verdades.
E só.
Um abraço a todos e sejam bem-vindos.





quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Para Ler II

                                                                 REBENTO
                                                                                          Gilberto Gil


                                                            Rebento, substantivo abstrato,
                                                            O ato, a criação, e o seu momento,
                                                            Como uma estrela nova e seu barato
                                                            Que só Deus sabe lá, no firmamento.

                                                            Rebento, tudo que nasce é rebento,
                                                            Tudo que brota,  tudo que vinga, que medra,
                                                            Rebento raro como flor na pedra,
                                                            Rebento farto como trigo ao vento.

                                                            Outras vezes rebento simplesmente
                                                            No presente do indicativo,
                                                            Como a corrente de um cão furioso,
                                                            Como as mãos de um lavrador ativo.
                                                            Às vezes, mesmo perigosamente,
                                                            Como acidente em forno radioativo,
                                                            Às vezes, só porque fico nervoso,
                                                            Rebento,
                                                            Às vezes somente porque estou vivo.
                                                            Rebento, a reação  imediata
                                                            A cada sensação de abatimento.
                                                            Rebento, o coração dizendo “bata”,
                                                            A cada bofetão do sofrimento.
                                                            Rebento, esse trovão dentro da mata
                                                            E a imensidão do som desse momento.,

    GIL, Gilberto. In GÓES, Fred. (org.) Gilberto Gil. São Paulo, Abril Educação, 1982. P. 65 (Literatura Comentada)



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Para ler I

                                                        História de passarinho




            Um ano depois os moradores do bairro ainda se lembravam do homem de cabelo ruivo que enlouqueceu e sumiu de casa.
            Ele era um santo, disse a mulher abrindo os braços. E as pessoas em redor não perguntaram nada e nem era preciso, perguntar o que se todos já sabiam que era um bom homem que de repente abandonou casa, emprego no cartório, o filho único, tudo. E se mandou Deus sabe para onde.
            Só pode ter enlouquecido, sussurrou a mulher, e as pessoas tinham que se aproximar inclinando a cabeça para ouvir melhor. Mas de uma coisa estou certa, tudo começou com aquele passarinho, começou com o passarinho. Que o homem ruivo não sabia se era um canário ou um pintassilgo. Ô, Pai! caçoava o filho, que raio de passarinho é esse que você foi arrumar?!
            O homem ruivo introduzia o dedo entre as grades da gaiola e ficava acariciando a cabeça do passarinho que por essa época era um filhote todo arrepiado, escassa a plumagem de um amarelo-pálido com algumas peninhas de um cinza-claro.
            Não sei , filho, deve ter caído de algum ninho, peguei ele na rua, não sei que passarinho é esse.
            O menino mascava chicle. Você não sabe nada mesmo, Pai, nem marca de carro, nem marca de cigarro, nem marca de passarinho, você não sabe nada.
            Em verdade, o homem ruivo sabia bem poucas coisas. Mas de uma coisa ele estava certo, é que naquele instante gostaria de estar em qualquer parte do mundo, mas em qualquer parte mesmo, menos ali. Mais tarde, quando o passarinho cresceu, o homem ruivo ficou sabendo também o quanto ambos se pareciam, o passarinho e ele.
             Ai!, o canto desse passarinho, queixava-se a mulher. Você quer mesmo me atormentar, Velho. O menino esticava os beiços, tentando fazer rodinhas com a fumaça do cigarro que subia para o teto, Bicho mais chato, Pai, solta ele.
             Antes de sair para o trabalho, o homem ruivo costumava ficar algum tempo olhando o passarinho que desatava a cantar, as asas trêmulas ligeiramente abertas, ora pousando num pé ora noutro e cantando como se não pudesse parar nunca mais. O homem então enfiava a ponta do dedo entre as grades, era a despedida e o  passarinho, emudecido, vinha meio encolhido oferecer-lhe a cabeça para a carícia. Enquanto o homem se afastava, o passarinho se atirava meio às cegas contra as grades, fugir, fugir. Algumas vezes, o homem assistiu a essas tentativas que deixavam o passarinho tão cansado, o peito palpitante, o bico ferido. Eu sei, você quer ir embora, você quer ir embora mas não pode ir, lá fora é diferente e agora é tarde demais.
             A mulher punha-se então a falar, e falava uns cinquenta minutos sobre as coisas todas que quisera ter e que o homem ruivo não lhe dera, não esquecer aquela viagem para Pocinhos do Rio Verde e o trem prateado descendo pela noite até o mar. Esse mar que, se não fosse o pai (que Deus o tenha!), ela jamais teria conhecido, porque em negra hora se casara com um homem que não prestava para nada, Não sei mesmo onde estava com a cabeça quando me casei com você, Velho.
            Ele continuava com o livro aberto no peito, gostava muito de ler. Quando a mulher baixava o tom de voz, ainda furiosa (mas sem saber mais a razão de tanta fúria), o homem ruivo fechava o livro e ia conversar com o passarinho que se punha tão manso que se abrisse a portinhola poderia colhê-lo na palma da mão. Decorridos os cinquenta minutos das queixas, e como ele não respondia mesmo, ela se calava, exausta. Puxava-o pela manga, afetuosa, Vai, Velho, o café está esfriando, nunca pensei que nesta idade avançada eu fosse trabalhar tanto assim. O homem ia tomar o café. Numa dessas vezes, esqueceu de fechar a portinhola e quando voltou com o pano preto para cobrir a gaiola (era noite) a gaiola estava vazia. Ele então sentou-se no degrau de pedra da escada e ali ficou pela madrugada, fixo na escuridão. Quando amanheceu, o gato da vizinha desceu o muro, aproximou-se da escada onde estava o homem ruivo e ficou ali estirado, a se espreguiçar sonolento de tão feliz. Por entre o pelo negro do gato desprendeu-se uma pequenina pena amarelo-acinzentada que o vento delicadamente fez voar. O homem inclinou-se para colher a pena entre o polegar e o indicador. Mas não disse nada, nem mesmo quando o menino, que presenciara a cena, desatou a rir, Passarinho burro! Fugiu e acabou aí, na boca do gato?
            Calmamente, sem a menor pressa, o homem ruivo guardou a pena no bolso do casaco e levantou-se com uma expressão tão estranha que o menino parou de rir para ficar olhando. Repetiria depois à Mãe, Mas ele até que parecia contente, Mãe, juro que o Pai parecia contente, juro! A mulher então interrompeu o filho num sussurro, Ele ficou louco.

            Quando formou-se a roda de vizinhos , o menino voltou a contar isso tudo, mas não achou importante contar aquela coisa que descobriu de repente: o Pai era um homem alto, nunca tinha reparado antes como ele era alto. Não contou também que estranhou o andar do Pai, firme e reto, mas por que ele andava agora desse jeito? E repetiu o que todos já sabiam, que quando o Pai saiu, deixou o portão aberto e não olhou para trás.


TELLES, Lygia Fagundes. Invenção e Memória. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 95-97.