segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Leitura

                                                               Que ódio






            Detesto usar este espaço para falar sobre coisas que odeio. A razão é simples: a crônica é um pedaço de amor cercado de ódio por todos os lados. A crítica odeia o filme, o editorial odeia o governo, a carta do leitor odeia o editorial (e o governo).
        Queria que este espaço fosse dedicado aos passarinhos que pousaram no parapeito. Mas até hoje nenhum passarinho pousou no meu parapeito – os cocôs de passarinho, em compensação, não param de surgir.
            O ódio, na maior parte das vezes, é irracional.
            Odeio os carros quando tô a pé. Odeio os pedestres quando tô de bicicleta. Odeio os ônibus quando tô de carro. Odeio os ônibus quando tô de ônibus. Odeio o mundo quando eu acordo. Odeio cigarro. E odeio quem se incomoda com cigarro quando eu tô fumando. Odeio acordar cedo e odeio acordar tarde. Odeio o Brasil e odeio, ao mesmo tempo, as pessoas que odeiam o Brasil.
            Tem ódio que não faz o menor sentido. Mas tem ódio que faz.
            Por exemplo: sem nenhuma razão plausível, acrescentaram um pitoco no meio da tomada, tornando obsoletos todos os eletrodomésticos do país. Não por acaso a tomada tem três pinos como um tridente: eu tenho certeza de que foi obra do demônio. Ou do Eduardo Cunha. O que dá no mesmo.
            Mas pior que a tomada de três pinos (tá bom: tão ruim quanto) é o novo (que já nasceu velho) acordo (com o qual ninguém está de acordo) ortográfico. O desacordo é a tomada de três pinos da língua portuguesa.
            Não bastasse termos poucos livros e uma população que não lê, os gramáticos tornaram obsoletos todos os livros do país. De 1911 até hoje, o português brasileiro sofreu cinco reformas ortográficas. Nesse mesmo período, o inglês, o francês e o espanhol não sofreram nenhuma.
            E o pior: a reforma não faz o menor sentido. Caiu o hífen em pé de moleque. Mas não caiu em pé-de-meia. Caiu em pão de ló. Mas não em pão-de-leite. Caiu o hífen de copiloto, e junto com ele o de cocomandante. (Sim, isso mesmo. Agora o cocô é o mandante.)
            Dos acentos, o trema é o que faz menos falta (embora tivesse grande valor afetivo). Agora "para" de parar se escreve igual a para de "em direção a". O que antes parava agora não para mais. A manchete "trânsito para São Paulo" pode significar duas coisas opostas. A população que já não sabia escrever agora sabe menos.
            Quem ganha com isso? Os gramáticos, claro, classe com a qual ninguém se importa até o momento em que se proclamam indispensáveis.   Os gramáticos são os fabricantes de benjamim da língua portuguesa.

                                                                                         Gregório Duvivier


          http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2015/06/1636191-que-odio.shtml .


Imagem:http://www.multiajuda.com.br/post.phpid=242&t=Minha+m%C3%A3e+nutre+um+%C3%B3dio+pela+minha+pessoa


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Artigo de opinião

EMEF Prof Fernando Pantaleão
Língua Portuguesa - Leitura e Análise Textual - Artigo de Opinião -    9 º Ano   -            
4º  Bimestre 2015

                                             
Castigos físicos

            O castigo físico acaba com a autoridade de quem castiga, pois revela que seu argumento é a força
            Uma recente pesquisa Datafolha (Folha, 26/7) mostra que, no Brasil, 69% das mães e 44% dos pais admitem ter batido nos filhos.
            Parêntese. Os pais são tão violentos quanto as mães: simplesmente, eles passam menos tempo em casa e lidam menos com o “adestramento” dos filhos.
            A pesquisa constata também que 72% dos adultos sofreram castigos físicos quando crianças.Como se explica, então, o fato de que 54% dos brasileiros se declaram contrários ao projeto de lei que proíbe os castigos físicos em crianças? Há várias hipóteses possíveis.
1) Talvez quem apanhou quando criança não queira perder o direito de se vingar em cima   dos     filhos.
2) Talvez não aceitemos a ideia de que os nossos pais tinham sobre nós uma autoridade maior do que a que nós temos ou teremos sobre nossos filhos.
3) Na mesma linha, talvez estejamos dispostos a apanhar dos superiores sob a condição de sermos autorizados a bater nos subalternos.
Nota: aceitar apanhar dos mais poderosos para poder bater nos mais fracos é a característica que resume a personalidade burocrático-autoritária do funcionário fascista.
4) A autoridade, dizem alguns com razão, sempre tem um pé na coação e recorre à força quando seu prestígio não for suficiente para ela se impor. Hoje, a autoridade simbólica dos adultos é cada vez menor. É provável que os próprios adultos sejam responsáveis por isso (principalmente, por eles se comportarem cada vez mais como crianças); tanto faz, o que importa é que o prestígio dos adultos não lhes garante mais respeito e obediência. Portanto, a palavra aos tabefes.
            É um erro: o castigo físico acaba com a autoridade de quem castiga, pois revela que seu argumento é apenas a força. A reação mais sensata da criança será: tente de novo quando eu estiver com 15 anos e 1,80 m de altura.
            Esses e outros argumentos a favor da palmatória não encontram minha simpatia. Até porque verifico que os rastos desses castigos não são bonitos. Mesmo um simples tapa é facilmente traumático tanto para o pai que bateu como para o filho: ele paira na memória de ambos como uma traição amorosa que não pode ser falada por ser demasiado humilhante (para os dois).
Resumindo:
1) sou absolutamente contra qualquer castigo físico;
2) sou também contra a extensão do poder do Estado no campo da vida privada, por temperamento anárquico e porque sou convencido que, neste campo, as famílias erram muito, mas o Estado, quase sempre, erra mais.
CALLIGARIS, Contardo. A coragem do amor que dura. Disponível em:< http://contardocalligaris.blogspot.com/2010/05/coragem-do-amor-que-dura.html>. Acesso em: 13 ago. 2010. (adaptado)

1. Com base no texto, responda :
a. A linguagem utilizada é objetiva, ou deixa margem a diferentes interpretações?

b. Pode-se dizer que o texto foi escrito de acordo com a norma-padrão?
c. Há expressões que fogem às normas da língua escrita ou são típicas da oralidade?
d. O ponto de vista é explicitado já no início do texto? Onde?
e.Há argumentos consistentes em defesa do ponto de vista?

2. O texto de Contardo Calligaris é um artigo de opinião. Qual é a tese defendida por ele?

3. Qual é o argumento utilizado pelo autor para defender o seu ponto de vista?

4. Encontre os referentes dos seguintes elementos de coesão.
a) “Esses e outros argumentos a favor da palmatória não encontram minha simpatia.”
b) “ele paira na memória de ambos como uma traição amorosa que não pode ser falada por ser demasiado humilhante (para os dois).”
c) “É provável que os próprios adultos sejam responsáveis por isso.”

5. Além da argumentação, é comum encontrarmos estratégias textuais para convencer o leitor do seu ponto de vista. Quais estão presentes no texto Castigos físico?
(    ) Repetição de termos e informações.
(    ) Retomada de informações.
(    ) Argumentos de autoridade.
(    ) Contra-argumentação.
(    ) Explicação didática em forma de tópicos.

6. Analise as afirmações a seguir sobre o texto e assinale a opção correta:
I. Os pais são contra a lei que proíbe o castigo físico porque não querem perder o direito de se vingar dos castigos que sofreram quando pequenos.
II. 69% dos pais admitem bater nos filhos com frequência.
III. O autor não tem uma opinião definida, pois é contra os castigos físicos, mas acredita que o Estado não deve regular a vida privada.
Estão corretas as afirmações:

a) I         b) II          c) III        d) II e III          e) Todas

Imagem: http://imagensengracadas.com.br/blog/castigo/

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Dia do professor




                                Aos professores,
                                  os  verdadeiros  heróis da resistência.

                               Que a força sempre vença o desânimo
                               Que a energia se renove todos os dias.
                               Não deixem de acreditar
                               na vivência do dia a dia
                               que mescla os acontecimentos
                               com bons e maus momentos.
                               Contudo sempre deixem o seu melhor
                               para a renovação de que precisam.
                               Não esmoreçam jamais,
                               pois que cada dia é assim:
                               luz e escuridão.
                               A despeito desse antagonismo
                               que hoje os persegue,
                               tenham na luz a perseverança
                               de  um trabalho bem feito,
                               tenham  na luz a esperança
                               de uma educação ideal, qualitativa e justa,
                               pela  qual  vocês  se doam plenamente
                               todos os dias
                               com  o amor  que dedicam  ao seu trabalho.

                               Parabéns !


                               Que Deus sempre possa mantê-los diletos e iluminados.



Imagemhttps://www.google.com.br/searchq=imagem+de+professor&espv=2&rlz=1C1KMZB_enBR618BR618&tbm=isch&imgil=ft_WJXlvQgCSlM%253A%253


                                                                          

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Gênero Conto de Assombração


EMEF Prof Fernando Pantaleão
Língua Portuguesa -  Gênero Conto de assombração - 7º Ano - 3 º Bimestre / 2015
Texto I

O MÉDICO FANTASMA

Esta história tem sido contada de pai para filho na cidade de Belém do Pará. Tudo começou numa noite de lua cheia de um sábado de verão.
Dois garotos conversavam sentados na varanda da casa de um deles.
— Você acredita em fantasma? — perguntou o mais novo.
— Eu não! — disse o outro.
— Acredita sim! — insistiu o mais novo.
— Pode apostar que não — replicou o outro.
— Tudo bem. Aposto minha bola de futebol que você não tem coragem de entrar no cemitério à noite.
— Ah, é? — disse o garoto que fora desafiado. Pois então vamos já para o cemitério, que eu vou provar minha coragem.
Assim, os dois garotos foram até a rua do cemitério. O portão estava fechado. O silêncio era profundo. Estava tão escuro... Eles começaram a sentir medo.
Para ganhar a aposta, era preciso atravessar a rua e bater a mão no portão do cemitério. O garoto que tinha topado o desafio correu. Parou na frente do portão e começou a fazer careta para o amigo. Depois se encostou ao portão e tentou bater a mão nele. Foi quando percebeu que ela estava presa.
— Socorro! Alguém me ajude! — ele gritou, desmaiando em seguida.
Nisso apareceu um velhinho vindo do fundo do cemitério, abriu o portão e chamou o outro menino.
— Seu amigo prendeu a manga da camisa no portão e desmaiou de medo. Coitadinho, pensou que algum fantasma o estivesse segurando.
O garoto reparou que o velhinho era muito magro, quase transparente.
— Obrigado. Como é que o senhor se chama?
— Eu sou o médico daqui. Vou acordar seu amigo.
O velhinho passou a mão na cabeça do menino desmaiado e ele despertou na mesma hora.
— Vão pra casa, meninos — ele disse. Já passou da hora de dormir.
E foi assim que os meninos perceberam que tinham conhecido um fantasma e entenderam que não precisavam ter medo de fantasmas, pois esses, apesar de misteriosos, são do bem.
Heloísa Prieto. “Lá vem história outra vez: contos do folclore mundial”. São Paulo. Cia das letrinhas, 1997 (texto adaptado para fins didáticos).


INTERPRETANDO O TEXTO

1) Assinale a alternativa correta:

a) No início do texto, onde estavam os personagens?

(    ) Os garotos estavam na escola, brincando no recreio.
(    ) Os garotos estavam na porta do cemitério.
(    ) Os garotos estavam sentados na varanda na casa de um deles.

b) Por que os meninos decidem ir ao cemitério?

(    ) Para acompanhar um enterro.
(    ) Devido a uma aposta que fizeram valendo uma bola de futebol.
(    ) Devido a uma aposta que fizeram valendo uma bola de basquete.

c) O que era necessário para ganhar a aposta?

(    ) Atravessar a rua e bater a mão no portão do cemitério.
(    ) Atravessar a rua e entrar no cemitério.
(    ) Atravessar a rua e chamar pelos fantasmas pelo portão do cemitério.

d) Depois de se encostar no portão, o que aconteceu ao garoto?

(    ) Sua mão ficou presa no portão, mas ele conseguiu se soltar rapidamente.
(    ) Sua mão ficou presa, ele gritou e desmaiou em seguida.
(    ) Sua mão ficou presa, ele ficou mudo e desmaiou em seguida.

2) O médico fantasma é uma história sobre medo, um “Conto de assombração”. Descreva o momento mais assustador da história.

3) Você ficou com medo? Por quê?

4) Como os meninos perceberam que o velhinho era um fantasma?

5) Por que será que o desafio era ter que ir ao cemitério à noite? Você aceitaria este desafio? Por quê?


                                                      Texto II

O homem que enxergava a morte

Era um homem pobre. Morava num casebre com a mulher e seis filhos pequenos. O homem vivia triste e inconformado por ser tão miserável e não conseguir melhorar de vida.
Um dia, sua esposa sentiu um inchaço na barriga e descobriu que estava grávida de novo. Assim que o sétimo filho nasceu, o homem disse à mulher:
– Vou ver se acho alguém que queira ser padrinho de nosso filho.
Vestiu o casaco e saiu de casa com ar preocupado. Temia que ninguém quisesse ser padrinho da criança recém-nascida. Arranjar padrinho para o sexto filho já tinha sido difícil. Quem ia querer ser compadre de um pé-rapado como ele?
E lá se foi o homem andando e pensando e quanto mais pensava mais andava inconformado e triste. Mas ninguém consegue colocar rédeas no tempo.
O dia passou, o sol caiu na boca da noite e o homem ainda não tinha encontrado ninguém que aceitasse ser padrinho de seu filho. Desanimado, voltava para casa, quando deu com uma figura curva, vestindo uma capa escura, apoiada numa bengala. A bengala era de osso.
– Se quiser, posso ser madrinha de seu filho – ofereceu-se a figura, com voz baixa.
– Quem é você? – perguntou o homem.
– Sou a Morte.
O homem não pensou duas vezes:
– Aceito. Você sempre foi justa e honesta, pois leva para o cemitério todas as pessoas, sejam elas ricas ou pobres. Sim – continuou ele com voz firme –, quero que seja minha comadre, madrinha de meu sétimo filho!
E assim foi. No dia combinado, a Morte apareceu com sua capa escura e sua bengala de osso. O batismo foi realizado. Após a cerimônia, a Morte chamou o homem de lado.
– Fiquei muito feliz com seu convite – disse ela. – Já estou acostumada a ser maltratada. Em todos os lugares por onde ando as pessoas fogem de mim, falam mal de mim, me xingam e amaldiçoam. Essa gente não entende que não faço mais do que cumprir minha obrigação. Já imaginou se ninguém mais morresse no mundo? Não ia sobrar lugar para as crianças que iam nascer! Na verdade – confessou a Morte –, você é a primeira pessoa que me trata com gentileza e compreensão.
E disse mais:
– Quero retribuir tanta consideração. Pretendo ser uma ótima madrinha para seu filho.
A Morte declarou que para isso transformaria o pobre homem numa pessoa rica, famosa e poderosa.
– Só assim – completou ela –, você poderá criar, proteger e cuidar de meu afilhado.
O vulto explicou então que, a partir daquele dia, o homem seria um médico.
– Médico? Eu? – perguntou o sujeito, espantado. Mas eu de Medicina não entendo nada!
– Preste atenção – disse ela.
Mandou o homem voltar para casa e colocar uma placa dizendo-se médico. Daquele dia em diante, caso fosse chamado para examinar algum doente, se visse a figura dela, a figura da Morte, na cabeceira da cama, isso seria sinal de que a pessoa ia ficar boa.
– Em compensação – rosnou a Morte –, se me enxergar no pé da cama, pode ir chamando o coveiro, porque o doente logo, logo vai esticar as canelas.
A Morte esclareceu ainda que seria invisível para as outras pessoas.
– Daqui pra frente – concluiu a famigerada –, você vai ter o dom de conseguir enxergar a Morte cumprindo sua missão.
Dito e feito.
O homem colocou uma placa na frente de sua casa e logo apareceram as primeiras pessoas adoentadas.
O tempo passava correndo feito um rio que ninguém vê.
Enquanto isso, sua fama de médico começou a crescer.
É que aquele médico não errava uma.
O doente podia estar muito mal e já desenganado. Se ele dizia que ia viver, dali a pouco o doente estava curado.
Em outros casos, às vezes a pessoa nem parecia muito enferma. O médico chegava, olhava, examinava, coçava o queixo e decretava:
– Não tem jeito!
E não tinha mesmo. Não demorava muito, a pessoa sentia-se mal, ficava pálida e batia as botas.
A fama do homem pobre que virou médico correu mundo. E com a fama veio a fortuna. Como muitas pessoas curadas costumavam pagar bem, o sujeito acabou ficando rico.
Mas o tempo é um trem que não sabe parar na estação.
O sétimo filho do homem, o afilhado da Morte, cresceu e tornou-se adulto.
Certa noite, bateram na porta da casa do médico. Dessa vez não era nenhum doente pedindo ajuda. Era uma figura curva, vestindo uma capa escura, apoiada numa bengala feita de osso. A figura falou em voz baixa:
– Caro compadre, tenho uma notícia triste: sua hora chegou. Seu filho já é homem feito. Estou aqui para levar você.
O médico deu um pulo da cadeira.
– Mas como! – gritou. – Fui pobre e sofri muito. Agora que tenho uma profissão, ajudo tantas pessoas, tenho riqueza e fartura, você aparece pra me levar! Isso não é justo!
A Morte sorriu.
– Vá até o espelho e olhe para si mesmo – sugeriu. – Está velho. Seu tempo já passou.
Mas o médico não se conformava. E argumentou, e pediu, e suplicou tanto que a Morte resolveu conceder mais um pouquinho de tempo.
– Só porque somos compadres, só por ser madrinha de seu filho, vou lhe dar mais um ano de vida – disse ela antes de sumir na imensidão.
O velho médico continuou a atender gente doente pelo mundo afora.
Um dia, recebeu um chamado. Era urgente. Uma moça estava gravemente enferma. Disseram que seu estado era desesperador. O homem pegou a maleta e saiu correndo. Assim que entrou no quarto da menina enxergou, parada ao pé da cama, a figura sombria e invisível da Morte, pronta para dar o bote.
O médico sentou-se na beira da cama e examinou a moça. Era muito bonita e delicada. O homem sentiu pena. Uma pessoa tão jovem, com uma vida inteira pela frente, não podia morrer assim sem mais nem menos. "Isso está muito errado", pensou o médico, e tomou uma decisão. "Já estou velho, não tenho nada a perder. Pela primeira vez na vida vou ter que desafiar minha comadre." E rápido, de surpresa, antes que a Morte pudesse fazer qualquer coisa, deu um jeito de virar o corpo da menina na cama, de modo que a cabeça ficou no lugar dos pés e os pés foram parar do lado da cabeceira. Fez isso e berrou:
– Tenho certeza! Ela vai viver! E não deu outra. Dali a pouco, a linda menina abriu os olhos e sorriu como se tivesse acordado de um sonho ruim.
A família da moça agradeceu e festejou. A Morte foi embora contrariada, e no dia seguinte apareceu na casa do médico.
– Que história é essa? Ontem você me enganou!
– Mas ela ainda era uma criança!
– E daí? Aquela moça estava marcada para morrer ¬disse a Morte. – Você contrariou o destino. Agora vai pagar caro pelo que fez. Vou levar você no lugar dela!
O médico tentou negociar. Disse que queria viver mais um pouco.
– Nós combinamos um ano – argumentou ele.
– Nosso trato foi quebrado. Não quero saber de nada – respondeu a Morte. – Venha comigo!
– Lembre-se de que até hoje eu fui a única pessoa que tratou você com gentileza e consideração!
A Morte balançou a cabeça.
– Quer ver uma coisa? – perguntou ela.
E, num passe de mágica, transportou o médico para um lugar desconhecido e estranho. Era um salão imenso, cheio de velas acesas, de todas as qualidades, tipos e tamanhos.
– O que é isso? – quis saber o velho.
– Cada vela dessas corresponde à vida de uma pessoa – explicou a Morte. As velas grandes, bem acesas, cheias de luz, são vidas que ainda vão durar muito. As pequenas são vidas que já estão chegando ao fim. Olhe a sua.
E mostrou um toquinho de vela, com a chama trêmula, quase apagando.
Mas então minha vida está por um fio! – exclamou o homem assustado. – Quer dizer que tudo está perdido e não resta nenhuma esperança?
A Morte fez "sim" com a cabeça. Em seguida, transportou o médico de volta para casa.
– Tenho um último pedido a fazer – suplicou o homem, já enfraquecido, deitado na cama. – Antes de morrer, gostaria de rezar o Pai-Nosso.
A Morte concordou.
 Mas o velho médico não ficou satisfeito.
– Quero que me prometa uma coisa. Jure de pé junto que só vai me levar embora depois que eu terminar a oração. A Morte jurou e o homem começou a rezar:
– Pai-Nosso que...
Começou, parou e sorriu.
– Vamos lá, compadre – grunhiu a Morte. – Termine logo com isso que eu tenho mais o que fazer.
– Coisa nenhuma! – exclamou o médico saltando vitorioso da cama. – Você jurou que só me levava quando eu terminasse de rezar. Pois bem, pretendo levar anos para acabar minha reza...
Ao perceber que tinha sido enganada mais uma vez, a Morte resolveu ir embora, mas antes fez uma ameaça:
– Deixa que eu pego você!
Dizem que aquele homem ainda durou muitos e muitos anos. Mas, um dia, viajando, deu com um corpo caído n
a estrada. O velho médico bem que tentou, mas não havia nada a fazer.
– Que tristeza! Morrer assim sozinho no meio do caminho! Antes de enterrar o infeliz, o bom homem tirou o chapéu e rezou o Pai-Nosso.
Mal acabou de dizer amém, o morto abriu os olhos e sorriu. Era a Morte fingindo-se de morto.
– Agora você não me escapa!
Naquele exato instante, uma vela pequena, num lugar desconhecido e estranho, estremeceu e ficou sem luz.
                                        
                               AZEVEDO, Ricardo. Contos de enganar a Morte. São Paulo: Ática, 2003.

O conto tem, em sua construção, uma maneira diferente de nomear e caracterizar as personagens que fazem parte da história narrada. Com base no conto “O Homem que enxergava a Morte”, responda:

1. Em relação ao espaço e ao tempo da narrativa, no texto de Ricardo Azevedo ou em qualquer outro conto de assombração é possível saber quando e onde a história narrada acontece? Por quê?

2. No conto de Ricardo Azevedo, a personagem principal tenta enganar a Morte para continuar vivendo por mais tempo. Como o homem consegue enganá-la? Explique.

3. Com base na leitura do texto, assinale as alternativas verdadeiras (V) ou falsas (F) que interpretam de forma adequada as informações presentes no conto “O homem que enxergava a morte”.

(    ) Ocorre o pacto entre a Morte e o humilde homem.
(    ) O sucesso profissional do homem que enxergava a morte percorre o mundo.
(    ) São apresentadas Informações sobre a vida do homem e de como era a sua família.
(   ) Quando nasce o oitavo filho do homem, ele resolve escolher a morte como madrinha da criança.
(   ) Uma figura curva, vestindo uma capa escura, apoiada numa bengala feita de osso, foi buscar o homem para levá-lo com ela.
(    ) A Morte dá instruções ao homem sobre como atuar na profissão de advogado.
(    ) O encontro do homem com a Morte foi interrompido pela mulher do homem.

4.Mesmo tratando de um tema tão arrepiante como é a morte, Ricardo Azevedo consegue ser engraçado. Por que podemos dizer que há humor no conto “O Homem que enxergava a Morte”? Explique.

5.O que você achou mais interessante a respeito dos contos de assombração? Explique.

6.Sobre o gênero textual “Contos de assombração”, marque com um X somente nas 
alternativas corretas.

(  ) As personagens, normalmente, são fantasmas, monstros, caveiras e outros seres assombrosos
(    ) Os contos de assombração são histórias verdadeiras.
(    ) O narrador participa da história.
(    ) O texto apresenta uma moral que fica no final da história.
(    ) O tempo em que se passa a história é indeterminado.
(  ) Vários contos de assombração possuem características próprias de uma região e geralmente são histórias contadas por pessoas mais velhas.

Produção textual


 Você já passou por uma situação assustadora? Era um medo real ou imaginário? Conte aqui a sua história. Se você não passou por nenhuma história assustadora, crie uma história.

sábado, 25 de abril de 2015

Estudo textual

EMEF Prof Fernando Pantaleão

Atividade de Leitura e Análise textual - 7o. Ano - 1º Bimestre 2015

                                                   Tormento não tem idade

                                                                                                              (Moacyr Scliar)

- Meu filho, aquele seu amigo, o Jorge, telefonou.
- O que é que ele queria?
- Convidou você para dormir na casa dele, amanhã.
- E o que é que você disse?
- Disse não sabia, mas que achava que você iria aceitar o convite.
- Fez mal, mamãe. Você sabe que odeio dormir fora de casa.
- Mas, meu filho, o Jorge gosta tanto de você...
- Eu sei que ele gosta de mim. Mas eu não sou obrigado a dormir na casa dele por causa disso, sou?
- Claro que não. Mas...
- Mas o que, mamãe?
- Bem, quem decide é você. Mas, que seria bom você dormir lá, seria.
- Ah, é? E por quê?
- Bem, em primeiro lugar, o Jorge tem um quarto novo de hóspedes e queria estrear com você. Ele disse que é um quarto muito lindo. Tem até tevê a cabo.
- Eu não gosto de tevê.
- O Jorge também disse que queria lhe mostrar uns desenhos que ele fez...
- Não estou interessado nos desenhos do Jorge.
- Bom. Mas tem uma coisa...
- O que é, mamãe?
- O Jorge tem uma irmã, você sabe. E a irmã do Jorge gosta muito de você. Ela mandou dizer que espera você lá.
- Não quero nada com a irmã do Jorge. É uma chata.
- Você vai fazer uma desfeita para a coitada...
- Não me importa. Assim ela aprende a não ser metida. De mais a mais, você sabe que eu gosto da minha cama, do meu quarto. E, depois, teria de fazer uma maleta com pijama, essas coisas...
- Eu faço a maleta para você, meu filho. Eu arrumo suas coisas direitinho, você vai ver.
- Não, mamãe. Não insista, por favor. Você está me atormentando com isso. Bem, deixe eu lhe lembrar uma coisa, para terminar com essa discussão: amanhã eu não vou a lugar nenhum. Sabe por que, mamãe? Amanhã é meu aniversário, você esqueceu?
- Esqueci mesmo. Desculpe, filho.
- Pois é. Amanhã estou fazendo 50 anos. E acho que quem faz 50 anos tem o direito de passar a noite em casa com sua mãe, não é verdade?

Estudo do Texto

1) O texto é um diálogo entre dois personagens. Quem são eles?

2) Leia esta fala: “Eu faço a maleta para você, meu filho. Eu arrumo suas coisas direitinho, você vai ver”. Por esta fala, o leitor pensa que o filho tem aproximadamente quando anos?

3) A mãe usa vários argumentos para tentar convencer o filho a dormir na casa do Jorge. Cite três.

4) Que justificativas o filho deu para não dormir na casa do amigo? Cite duas.

5) Transcreva a fala do texto que indica a idade do filho.

6) Por que a descoberta da idade do filho surpreende o leitor?


7) O texto retrata uma situação comum ou inusitada (incomum)? Justifique.