segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Leitura

                                                               Que ódio






            Detesto usar este espaço para falar sobre coisas que odeio. A razão é simples: a crônica é um pedaço de amor cercado de ódio por todos os lados. A crítica odeia o filme, o editorial odeia o governo, a carta do leitor odeia o editorial (e o governo).
        Queria que este espaço fosse dedicado aos passarinhos que pousaram no parapeito. Mas até hoje nenhum passarinho pousou no meu parapeito – os cocôs de passarinho, em compensação, não param de surgir.
            O ódio, na maior parte das vezes, é irracional.
            Odeio os carros quando tô a pé. Odeio os pedestres quando tô de bicicleta. Odeio os ônibus quando tô de carro. Odeio os ônibus quando tô de ônibus. Odeio o mundo quando eu acordo. Odeio cigarro. E odeio quem se incomoda com cigarro quando eu tô fumando. Odeio acordar cedo e odeio acordar tarde. Odeio o Brasil e odeio, ao mesmo tempo, as pessoas que odeiam o Brasil.
            Tem ódio que não faz o menor sentido. Mas tem ódio que faz.
            Por exemplo: sem nenhuma razão plausível, acrescentaram um pitoco no meio da tomada, tornando obsoletos todos os eletrodomésticos do país. Não por acaso a tomada tem três pinos como um tridente: eu tenho certeza de que foi obra do demônio. Ou do Eduardo Cunha. O que dá no mesmo.
            Mas pior que a tomada de três pinos (tá bom: tão ruim quanto) é o novo (que já nasceu velho) acordo (com o qual ninguém está de acordo) ortográfico. O desacordo é a tomada de três pinos da língua portuguesa.
            Não bastasse termos poucos livros e uma população que não lê, os gramáticos tornaram obsoletos todos os livros do país. De 1911 até hoje, o português brasileiro sofreu cinco reformas ortográficas. Nesse mesmo período, o inglês, o francês e o espanhol não sofreram nenhuma.
            E o pior: a reforma não faz o menor sentido. Caiu o hífen em pé de moleque. Mas não caiu em pé-de-meia. Caiu em pão de ló. Mas não em pão-de-leite. Caiu o hífen de copiloto, e junto com ele o de cocomandante. (Sim, isso mesmo. Agora o cocô é o mandante.)
            Dos acentos, o trema é o que faz menos falta (embora tivesse grande valor afetivo). Agora "para" de parar se escreve igual a para de "em direção a". O que antes parava agora não para mais. A manchete "trânsito para São Paulo" pode significar duas coisas opostas. A população que já não sabia escrever agora sabe menos.
            Quem ganha com isso? Os gramáticos, claro, classe com a qual ninguém se importa até o momento em que se proclamam indispensáveis.   Os gramáticos são os fabricantes de benjamim da língua portuguesa.

                                                                                         Gregório Duvivier


          http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2015/06/1636191-que-odio.shtml .


Imagem:http://www.multiajuda.com.br/post.phpid=242&t=Minha+m%C3%A3e+nutre+um+%C3%B3dio+pela+minha+pessoa