quinta-feira, 17 de março de 2016

Relato de Experiências Vividas

Caracterização do gênero relato de experiências vividas

Kátia Lomba Bräkling[1]

relato de experiência vivida: características gerais
Classificação Dolz e Schneuwly[2]
Domínio Social da Comunicação
Memorização e documentação de ações humanas.
Capacidades de Linguagem Dominantes
Representação pelo discurso de experiências vividas, situadas no tempo.
Aspectos Tipológicos Predominantes
Relatar.
A situação de comunicação
produtor do texto
Uma pessoa – ou um grupo - que relata fatos vivenciados por ela (individualmente ou não), a fim de compartilhar experiências ou para organizar registros que organizem a memória de aspectos da vida relacionados com situações específicas, tempos e temas determinados.
interlocutor
Leitores que se interessarem pelo compartilhamento das experiências em questão.
portadores possíveis
Livros, revistas, blogues, diários, memoriais, dossiês.
finalidade
Construir uma memória escrita de situações vivenciadas, compartilhando experiências vividas.
conteúdo temático
Situações vivenciadas por uma pessoa (individualmente ou não), relacionadas com períodos específicos da sua vida (infância, adolescência, férias na escola, segundo ano de escolaridade...), espaços determinados (acontecimentos ocorridos no sítio, tempo de residência no interior, tempo vivido na cidade grande, tempo de vida num apartamento), temas pontuais (travessuras, situações engraçadas, situações tristes, momentos de medo, demonstrações de amizade, situações de bullling, p. e.).


organização interna

a)    Contextualização inicial do relato, identificando tema/espaço/período.
b)   Identificação do relator como sujeito das ações relatadas e experiências vivenciadas.
c)    Referência à(s) ação(ões)/situação(ões) que será(ão) relatada(s).
d)    Apresentação das ações seqüenciando-as temporalmente, estabelecendo relação com o tema/espaço/período focalizado no texto, explicitando sensações, sentimentos, emoções provocados pelas experiências. Nesse processo poderá ou não ser estabelecida relação de causalidade entre as ações/fatos relatados, pois se trata de ações acontecidas no domínio do real e, dessa maneira, o que define a relação de causalidade são os fatos, em si, ou a perspectiva/compreensão do relator.
e)    Encerramento, pontuando os sentimentos, efeitos, repercussões das ações relatadas na vida do relator e dos envolvidos.
f)      A experiência vivenciada por uma pessoa, pode envolver terceiros, o que pode derivar na introdução das vozes desse terceiro no relato elaborado.
marcas Lingüísticas

a)    Relato de experiência vivida é organizado na primeira pessoa, seja do singular ou do plural. Essa marca de autoria se revela na pessoa do verbo e, além disso, nos pronomes pessoais utilizados. Por exemplo:
a.    Lembro-me bem da maneira como ele me falou;
b.    A partir de então, todos nós passamos a não mais ir pra escola por aquele caminho;
c.    Eu, Juca e Mariela, a partir daquele momento, nos coçamos de curiosidade...;
d.    Desde então nos sentimos responsáveis por tudo o que...;
b)   O relato rememora experiências. Dessa forma, na textualização sempre haverá marcas desse processo por meio da alternância entre hoje e ontem, aqui e lá:
a.    Hoje, quando penso na maneira como tudo aconteceu...;
b.    Naquela época, quando estudava na escola D. João VI, eu não pensava como agora, certo?
c)    Como se trata de ações organizadas no eixo temporal, essas marcas também serão explicitadas por meio dos tempos verbais utilizados e dos articuladores textuais:
a.    Depois daquele dia...;
b.    Em seguida, MAriela saiu correndo pela praça...;
c.    Naquela semana não dissemos uma palavra sobre o assunto;
d.    Dois dias depois para nossa surpresa, o casaco apareceu bem diante de nossos olhos.
d)    Como se trata de experiência pessoal, sempre haverá a marca das sensações, efeitos, repercussões da experiência no sujeito relator: fiquei surpreso naquele...; decepcionei-me com...; fiquei confuso com a reação de...; aquela situação provocou-me uma reflexão sem precedentes..., por exemplo.
e)    As experiências relatadas acontecem em um contexto que pode ou não envolver terceiros. Nessa perspectiva, é possível que, no texto, sejam introduzidas as vozes desses terceiros, quer seja por meio do discurso indireto, quer seja por meio de discurso direto. Se houver essa introdução, as marcas da mesma comporão o texto com a utilização dos recursos cabíveis:
a.    em discurso indireto, organização sintática que recupere a fala do outro: fulano afirmou que...; naquele momento Marina disse que..., por exemplo;
b.    em discurso direto:
                                          i.    coordenação entre dois pontos, parágrafo e travessão;
                                         ii.    coordenação entre dois pontos e aspas;
                                        iii.    coordenação entre dois pontos e travessão;
                                       iv.    utilização de verbos dicendi:
1.    antecipadamente, para anunciar a fala do outro: Então, ele me perguntou: — Posso levar esse livro emprestado?; Em seguida, ele disse: — Acho que, agora, você pisou mesmo na bola...; Ao que ele me respondeu: — Vamos lá! Não estou fazendo nada mesmo .., por exemplo;
2.    no meio do discurso do outro, explicando quem está falando (e aqui se utiliza os travessões para separar essa indicação: — Nesse momento – disse Maria procurando justificar-se – não posso ir até o mercado...;
3.    posteriormente ao discurso do outro, para recuperar a origem da fala: — Peço-te segredo disso tudo, está bem? – solicitou Jorge misterioso.
f)     Pode haver marcas do diálogo do relator com o interlocutor. Nesse sentido, poderão aparecer pronomes pessoais e de tratamento para explicitar essa relação. Por exemplo:
a.    Você quer saber? A partir daquele dia não me interessei mais por casas abandonadas...;
b.    Mas depois desse grito – pode acreditar – fiquei muito mais aliviado.


[1]  Kátia Lomba Bräkling Pedagoga e Mestre em Lingüística Aplicada pela PUC de SP; Professora da Pós-Graduação ISE Vera Cruz (São Paulo – SP); Coordenadora de Língua Portuguesa do Colégio Hebraico-Renascença (São Paulo); Assessora da Secretaria  Estadual de Educação – e outras instituições -  na Área de Ensino da Linguagem




[2] A partir da classificação de Dolz, Joaquim & Schneuwly, Bernard; Gêneros e Progressão em Expressão Oral e escrita; Universidade de Genebra, Suíça; mimeo.

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